O inicio do fim: Ultimos momentos da “era” ACM na política baiana

Tiago Ferreira*

Resumo: O inicio do fim soa com o prelúdio de algo inevitável, e assim foi à era ACM seu fim foi lento e gradual. Embora ele  acreditasse que sua ‘era’ transcenderia sua vida com o legado a seu filho e posteriormente a seu neto.

Palavras-Chave: ACM, Politica, Bahia, Coronelismo, Autoritarismo

Na segunda metade do seculo XX, e primeira decada do XXI  a politica baiana esta intrisecamente ligada a um icone. Antonio Carlos Magalhães (ACM)  foi sem duvida um grande personagem da politica no estado da Bahia e no Brasil. Ele foi protagonista de inumeros episódios que legaram-lhe as mais diversas opiniões. Amado por muitos e odiado por tantos, ele foi impar em suas práticas políticas, assim construindo sua trajetória politica. Utilizando o metodo analitico do materialismo historico buscarei abordar o periodo em que ACM esteve no poder bem como seu lento e gradual declinio.

* Aluno do 7º semestre do curso de História Licenciatura e Bacharelado da Universidade Católica de Salvador
Artido desenvolvido para avaliação da Historia da Bahia III, Ministrada por Alfredo Matta

Contexto Geral

Para entender o surgimento de ACM como personagem político e sua ascensão ao poder bem como suas praticas no governo devemos retroceder a chamada “revolução de 30” e a chamada primeira republica.
A revolução de 30 segundo ( TAVARES, 2008) foi a saída que as classes dominantes no Brasil encontraram para superar a estagnação do sistema oligárquico, que lhe servirá nos últimos 41 anos. Havia insatisfação nas classes médias dos grandes centros urbanos, levantes militares, conspirações permanentes de políticos e militares, repetidas greves de operários industriais e trabalhadores, Estados ameaçando separa-se do conjunto federativo, e coronéis fortalecidos nos seus municípios e áreas de domínio. Antes da revolução a Aliança Liberal divulgava palavras de combate as oligarquias, voto universal e secreto, leis trabalhistas e reforma agrária gradativa.
Lideradas pela oligarquia dissidente do rio grande do sul e apoiada pela burguesia paulista a ‘revolução de 30’ trouxe no seu bojo o compromisso de modernizar o Brasil através da industrialização. Haja vista que a crise de 1929 evidenciou a grande problemática de ser um pais agrário-exportador em uma econômica capitalista industrial de âmbitos mundiais. Ao assumir o poder Getulio procurou colocar em pratica suas propostas de industrialização, mas seria em moldes diferenciados, seria de cunho nacional. Onde a burguesia paulista se beneficiava com esse projeto. As lutas do capital estrangeiro para entrar no mercado nacional foram sempre acirradas, apoiando os partidos políticos de oposição como a UDN. Ate sua morte Getulio conviveu com esta luta entre a industrialização nacional e a pressão multinacional para entrar no mercado brasileiro. Diante deste contexto a Bahia continua com sua estrutura agrária e com os privilégios dos coronéis em seus redutos. Embora essa estrutura tenha sido combatida por um novo projeto de gerir o pais, um projeto modernizador que visava minar os poderes dos “coronéis” e suas influencias eleitorais em sua zonas de mando.
Diante destes anos de embate e com a morte de Getulio do principal defensor do projeto industrial nacional o projeto industrial multinacional conseguiu lograr êxito com o golpe militar de 1964. Os Estados Unidos principal representante do capital estrangeiro apoiou desde sempre a chamada “revolução de 64” com interesse de ampliar sua influencia na economia brasileira algo que já vinham sendo efetuada desde Juscelino. O golpe de 1964 teve como principal alvo o combate o comunismo que supostamente estava presente nos discursos de João Goulart, mas por detrás do discurso anti-comunista e a briga ideológica da guerra fria Estava o interesse no mercado brasileiro e todo seu potencial. Neste contexto a Bahia de característica senhorial se aliou ao capital estrangeiro contra a burguesia paulista e seu centralismo. O projeto de industrialização poderia se viabilizar agora com o dinheiro internacional.

Um dos grandes personagens da politica na historia da Bahia Antonio Carlos Magalhães começou sua trajetória política ainda nos tempos de escola no grêmio estudantil. Foi eleito deputado estadual em 1954 pela UDN, na eleição posterior se elegeu para deputado federal em 1958 sendo reeleito nas duas eleições seguintes 1962 e 1966. Deixa a câmara federal para assumir o cargo de governador da Bahia indicado pelo regime militar em 1967. Esse foi o inicio da vida política de ACM,  apoiado pelo Regime Militar ele tem traços marcantes em suas práticas no governo. Estas práticas que remontam a um período singular na politica brasileira, O inicio da república. Nela os mecanismos de controle do poder, em esfera regional ligadas a  o poder central garantiam a hegemonia de determinados grupos no poder. O ‘coronelismo’ marcou a política brasileira nas primeiras décadas da republica. Sendo combatida e perseguida após a revolução de 1930, na qual os setores urbanos visavam minar estes tipos de controle do poder local. Mesmo sendo combatido este pratica política durou mais tempo, e se adaptou a um novo contexto econômico, histórico e social. O ‘coronelismo’ do inicio do século é bem caracterizado por ocorrer no ambiente rural, o ‘senhor’ das terras e das condições de existência local utiliza de suas influências e prestigio para ordenar as ações de populares nas eleições, o chamado “voto do cabresto”. Este tipo de voto era bem comum  utilizando da coação física quando necessário ou  pelos laços de apadrinhamento. Essas regiões mandadas por coronéis eram chamadas de Currais eleitorais e eram verdadeiras maquinas preparadas para legitimar o poder destes senhores, o que chamamos de  ‘Clientelismo’.

“ACM, conseguiu afinar-se, como ninguém, tanto com o direcionamento político e econômico desenvolvimentista do regime militar, como com os poderes históricos dos grandes proprietários de terra”( MATA)

Chamar ACM de coronel pode soar como anacrônico mais com as devidas ressalvas, podemos identificar semelhanças nas praticas políticas embora em tempos históricos diferente, e assim chamá-lo de um “coronel fora de seu tempo ou com outras estruturas”.  Costumes coronelistas em um mundo capitalista. Como as condições de vida se diferem da estrutura agrária coronelista, ele usa do aparato do Estado para fazer sua rede de favorecimento.   Herdeiro deste tipo de fazer política ACM utiliza de meios públicos para fortalecer seus laços de apadrinhamento e influencia  obtendo apoio das diversas regiões da Bahia.  “ACM foi o último governo baiano no qual o governador assumiria o papel de super-coronel como estratégia principal de poder e controle do Estado.” (MATTA)

Antonio Carlos Magalhães viveu em seus mandatos de governador segundo (MATTA) a 4ª e 5ª fase da industrialização da Bahia.. Ele que era o principal representante e influenciador do capital estrangeiro no Estado. Em seu primeiro mandato (1971-1975) no período do “milagre econômico” conseguiu implementar projetos de modernização na Bahia , como o pólo de petroquímico em Camaçari,construiu as avenidas vales com a  paralela e o Cento administrativo da Bahia. ACM teve êxito em conciliar os diversos setores da emergente burguesia baiana, que vinha bipolarizada desde nos anos 30, dividida em oligarquia dissidente e cooptada. Os projetos antes antagônicos se uniam agora liderados por ACM.  Visto como um dos grandes responsável pelo processo de modernização e industrialização multinacional da Bahia ele ganhou prestigio e apoio das mais diversas camadas sociais. Sua fama, poder e modo autoritário de governar lhe proporcionaram uma forma singular de caracterização seu modo de fazer política agora era chamado de “Carlismo”, este modo duro, com pouco dialogo e perseguições políticas. Fora do governo por um período voltou para seu segundo mandato em (1979-1983). “construindo estradas ferroviárias e levando energia elétrica para as cidades.” (TAVARES, 2008) Depois de uma dissidência com o seu Partido o PSD fundou junto com outros dissidente o PFL.  Seu ultimo mandato para governador foi em (….) usando de grande propaganda midiática possuidor de uma rede de televisão, radio e jornal poder usar em seu favor na campanha política. No final do mandato se candidata a senador e ganha. No raiar do século XXI depois de sua maior perda familiar e política ele continua na política como senador ate sua morte em 20/07/2007.

  • Contexto especifico

O inicio do fim da ‘era ACM’ é por mim apontada em quanto fato a perda da prefeitura de salvador em 2002. Esta não foi à primeira perda eleitoral de ACM em seu reduto. Seus apoiados Já haviam perdido o governo em 1986 e a prefeitura em 1990, mas agora a conjuntura era outra seu poder estava ruindo, sua imagem desgastada com os escândalos do senado e suas praticas políticas vinham sido fragmentadas e atacadas por seus rivais políticos. Outro marco para o fim de sua era foi a morte trágica de seu filho Luis Eduardo Magalhães em 1998, este que era considerado seu futuro sucessor, e para o pai teria grande possibilidade de assumir a presidência da republica. Uma vez seu maior herdeiro político morto ele passou a trabalhar seu neto. Preparando para vida política, sucedendo e dando prosseguimento seus projetos políticos.

O que levou a quebra de seu poder? Alem do desgaste do método autoritário e a impopularidade gerada com os escândalos no Senado, Alguns teóricos apontam como um dos elementos da quebra de seu reduto coronelista, o programa do governo do PT, Bolsa-Familia, que gerou uma grande popularidade ao governo petista, minando as estruturas produzidas há tempos por ACM.

No ano seguinte morre o Senador ACM grande líder do PFL, ele era seu grande ícone. O partido posteriormente mudou de nome para Democratas possivelmente para afastar a imagem desgastada que foi vinculada ao PFL, imagem que remontava as praticas autoritárias e duras, que não cabia mais para a nova cara da Bahia.

  • Analise do jornal
  • O jornal trás na sua capa a matéria que destaca a vitória de Jacques Wagner ao governo da Bahia. E como anexo a foto de Antonio Carlos Magalhães que aparentemente esta cabisbaixo e desolado em ver a perda do controle do governo estadual. O jornal A Tarde ao longo do governo de ACM se mostrou em oposição, ele que por certos episódios foi perseguido. O líder da política baiana por muito tempo tinha seu próprio jornal que utilizava para propagar sua imagem como melhor convinha. O jornal A Tarde por não estar vinculado ao político podia tecer criticas as suas formas de governo e suas praticas políticas, enfatizando o lado ‘ruim’ ou o lado ‘malvadeza’ de ACM enquanto o seu periódico enfatizava seu lado “ternura”.

  • Conclusão
  • O próprio significado da palavra “Era” já pressupõe o período que tem inicio e fim. Com é entendido que a o governo de ACM e seu poder na Bahia atende essa definição, acredito ser bem empregado este titulo. Embora muitos cientistas políticos acreditem que o poder dele foi legado ao seu neto. È conflitante esta afirmação visto que o Antonio Carlos Magalhães Neto não possue as mesmas características de políticas de seu avô. O próprio Partido que identificava ACM foi extinto e fundado outro talvez para apagar a velha imagem descatada do antigo ícone do partido buscando iniciar uma nova…. ERA. Em um Brasil diferente, onde as estruturas coronelistas já não cabem mais, em um mundo diferente onde o capitalismo em meio as crises mostra suas terríveis faces. Os herdeiro de ACM buscam desvinculados de uma imagem negativa inicia sua própria ERA.

  • Referências
  • TAVARES, Luis Henrique Dias, História da Bahia, 11ª Ed., São Paulo: Ed. UNESP Salvador: EDUFBA, 2008.
    MATTA, Alfredo E. R., GOVERNADORES E INTERVENTORES DA BAHIA REPUBLICANA DE 1980 A 2000 – UMA BAHIA INDUSTRIAL ?
    _________________ GOVERNADORES E INTERVENTORES DA BAHIA REPUBLICANA DE 1950 A 1980 – A INDUSTRIALIZAÇÃO
    _________________ GOVERNADORES E INTERVENTORES DA BAHIA REPUBLICANA DE 1930 A 1950 – OLIGARQUIA SUBMETIDA
    _________________ GOVERNADORES E INTERVENTORES DA BAHIA REPUBLICANA DE 1889 A 1912 – SOBREVIVÊNCIA DA MONARQUIA
    _________________ GOVERNADORES E INTERVENTORES DA BAHIA REPUBLICANA DE 1889 A 1912 – SOBREVIVÊNCIA DA MONARQUIA

    A tarde, Salvador , p. 1 , 02 de out. 2006.

 

2 respostas para O inicio do fim: Ultimos momentos da “era” ACM na política baiana

  1. barboso1981 disse:

    Tiago. Como sempre tiro todas as minhas boinas e meus chapéus para seu trabalho. A era ACM foi encerrada quando ele percebeu que não detinha mais o poder sobre o povo baiano.

  2. jef04 disse:

    E ai man o inicio do fim de ACM,é uma interessante interpretação do homem que “dominou” a Bahia durante 30 anos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s